Urticária ao Frio
Miguel Paiva
27 Agosto
A urticária de contacto ao frio é uma forma de urticária crónica induzida provocada pela exposição a frio, seja através do ar, da água ou contacto com um objecto (ex. frigorífico). O grupo da urticária crónica induzida engloba formas raras de urticária que representam, no seu total, cerca de 10 a 30% das formas de urticária crónica (a maioria dos casos de urticária crónica é espontânea, ou seja, não se conhece o fator desencadeante).
Os jovens adultos são o grupo mais atingido pela urticária ao frio, mas estão descritos casos em todas as faixas etárias.
A urticária ao frio é caracterizada pelo desenvolvimento de lesões de urticária (“babas” que dão muita comichão) poucos minutos após a exposição a ambiente frio, geralmente durante a fase de reaquecimento. O mais frequente é as lesões aparecerem apenas nas áreas diretamente expostas ao frio, p.e.: nos pés e pernas quando a pessoa os molha na água do mar ou piscina; nas mãos, quando manipula alimentos numa arca congeladora; na face exposta ao vento frio no Inverno; inchaço dos lábios ao comer um gelado. Nalguns casos as lesões de urticária são generalizadas, estendendo-se por todo o corpo mesmo que o estímulo frio tenha afetado apenas uma área restrita. Em casos mais raros e graves, pode-se desenvolver uma reacção anafilática ao frio, caracterizada pelo aparecimento de sintomas que traduzem o envolvimento de outros órgãos, como falta de ar, vómitos, tonturas e mesmo perda de conhecimento. Alguns casos de afogamento poderão ser provocados pelo desenvolvimento desta forma grave de urticária ao frio.
Os sintomas de urticária ao frio habitualmente desaparecem 30 a 60 minutos após cessação do estímulo, e as lesões da pele desaparecem sem deixar qualquer marca.
A maioria dos casos de urticária ao frio não se associa com qualquer outra doença, sendo designada como urticária ao frio primária. Raramente, a urticária ao frio é secundária a outras doenças, como infecções ou doenças auto-imunes.
O diagnóstico da urticária ao frio baseia-se na história médica complementada pela evidência do desenvolvimento de urticária através da realização do teste de estimulação com frio. O teste do cubo de gelo é o mais utilizado na prática clínica, consistindo na aplicação no antebraço, de um cubo de gelo envolvido em plástico ou numa luva, durante período de tempo que pode atingir os 30 minutos, sendo a leitura efetuada 5-10 minutos após a remoção do estímulo. Os doentes com urticária ao frio, habitualmente, desenvolvem uma lesão de urticária no local da estimulação. Nos doentes com formas mais graves, as lesões tendem a aparecer com tempo de estimulação reduzido, frequentemente inferior a 3 minutos.
O tratamento da urticária ao frio baseia-se na adopção de medidas para prevenir a exposição ao frio e no tratamento farmacológico, utilizado no tratamento das crises e preventivamente.
Os cuidados gerais para prevenir a exposição a estímulos frios incluem: uso de vestuário adequado à temperatura ambiente, evitar ingestão de alimentos e bebidas frias; evitar atividades aquáticas (alguns doentes conseguem praticar estas atividades em águas mais quentes, mas os casos deverão ser avaliados individualmente pelo imunoalergologista); evitar atividades físicas em ambiente frio.
O tratamento farmacológico consiste na utilização de anti-histamínicos não sedativos (ex: levocetirizina, desloratadina, bilastina, ebastina, rupatadina) que podem ser utilizados em situação de crise, e como tratamento preventivo em doentes com sintomas frequentes. Os doentes com reacções graves devem ser portadores de caneta para auto-administração de adrenalina.
Apesar de ser uma doença crónica, a urticária ao frio, habitualmente, não vem para ficar, tendo duração média de 5 a 10 anos.


